ESPELHO, ESPELHO MEU: A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM CORPORAL, O NARCISISMO E OS DESAFIOS DA CONSTITUIÇÃO SUBJETIVA NA CONTEMPORANEIDADE
Palavras-chave:
Imagem corporal; Narcisismo; Constituição subjetiva.Resumo
Introdução: O espelho tem sido, ao longo da história humana, muito mais do que um objeto de reflexo óptico: é um dispositivo simbólico fundamental na constituição da subjetividade. A pergunta que se impõe diante dele não é apenas estética, mas existencial: o que vemos, e o que somos? Reconhecemo-nos na imagem que nos devolve? O mito de Narciso e a clínica psicanalítica contemporânea convergem em uma mesma resposta: a imagem de si não se constrói em solidão, mas sempre a partir do olhar do Outro. Como propõe Luis Fernando Veríssimo, cada um de nós é, na realidade, três: o que pensamos que somos, como os outros nos veem e o que pensamos que os outros veem¹. Essa tridimensionalidade da imagem é o ponto de partida deste trabalho, que investiga a construção da imagem corporal e sua relação com o narcisismo, a constituição subjetiva e as psicopatologias contemporâneas ligadas ao corpo. Objetivo: Investigar a construção da imagem corporal como processo subjetivo, histórico e relacional, articulando o mito de Narciso, o conceito psicanalítico de narcisismo e suas expressões clínicas contemporâneas, com ênfase na dismorfofobia e nos fenômenos de idealização e rejeição do próprio corpo na cultura atual. Método: Pesquisa bibliográfica e documental, desenvolvida a partir de materiais utilizados em minicurso apresentado pela autora em uma atividade acadêmica pela UNIJUÍ – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (2008) sobre construção da imagem corporal, artigos de psicologia clínica, referências da psicanálise freudiana e lacaniana, e produções sobre narcisismo, constituição subjetiva e dismorfofobia, articuladas com o mito grego de Narciso como chave interpretativa. Resultados e Discussão: A construção da imagem corporal vai muito além da percepção visual do próprio corpo. Trata-se de um conjunto de representações mentais acumuladas ao longo da vida, permeadas por aspectos visuais, impressões táteis, experiências dolorosas e prazerosas, significados afetivos, culturais, relacionais e cognitivos presentes na história de vida de cada sujeito². Em sua análise sobre a constituição do sujeito, Furini esclarece que a autoimagem é estruturada a partir do olhar do Outro, encarnado por aqueles que desempenham as funções parentais³. A autora destaca que o primeiro contato da criança com o espelho vai além do aspecto biológico, pois reflete as expectativas e desejos depositados sobre o seu corpo. Esse processo converge para o que Lacan conceituou como o estádio do espelho: um momento primordial de narcisismo primário que, embora alienante, é indispensável para fundar o "Eu"⁴. Contudo, Furini adverte para os perigos dessa transição, fundamentando-se em Jerusalinsky, ao apontar que falhas nesse estágio geram uma imagem frágil e insuficiente, enquanto o investimento excessivo torna-se aprisionante, prejudicando a elaboração futura de projetos e ideais do sujeito³,⁵. O mito grego de Narciso ilumina com precisão os riscos desse excesso. Narciso, jovem de beleza singular, foi advertido pelo sábio Tirésias de que só teria longa vida se jamais visse a própria imagem. Ao contemplar seu reflexo numa fonte, enlouqueceu de amor por si mesmo: não comia, não dormia, não ouvia os clamores de Eco, que por ele se apaixonara. Apaixonado, ensimesmado, buscava em si um outro que, sendo ele mesmo, não lhe respondia. Realizou-se seu destino: mergulhou no espelho e desapareceu no encontro impossível. Eco, que só nele vivia, petrificou-se e perdeu o poder de sua própria palavra. De acordo com Furini, a contemporaneidade expressa a dinâmica destrutiva do mito de Narciso e do conceito freudiano de narcisismo das pequenas diferenças por meio de psicopatologias como o transtorno dismórfico corporal: a intolerância ao que diverge, a redução do outro a espelho do que se deseja e o aniquilamento do diferente que ameaça a autoestima³,⁶. O terreno, assim, torna-se propício a preconceitos, fanatismos e violências³.Na clínica contemporânea, essa dinâmica se expressa de forma extrema na dismorfofobia ou transtorno dismórfico corporal: psicopatologia em que o sujeito, insatisfeito com a própria imagem, passa a vida planejando intervenções no corpo para alterar a percepção negativa que tem de si². O caso emblemático descrito neste trabalho é o de um jovem que realizou 19 cirurgias remodeladoras e buscava nova intervenção para corrigir o que percebia como desproporcionais seus próprios pés, após um alongamento ósseo de 10 centímetros. Segundo Souza de Lucia, o problema é que, quando esses pacientes resolvem uma questão, certamente encontram outra parte do corpo para corrigir, e assim por diante: a busca não tem fim porque o problema não está no corpo, mas na relação do sujeito com sua imagem². A cultura contemporânea potencializa esse sofrimento. A valorização da imagem, do sucesso a qualquer custo e das estereotipias midiáticas reduz a tolerância às diferenças e acirra os conflitos, sendo discutida pela Revista Viver Mente & Cérebro nos estudos sobre os benefícios, riscos e mitos da autoestima⁷. As pessoas, em geral, não se olham no espelho atraídas pela própria imagem, mas em busca de marcas de decadência e imperfeições: não para se vangloriarem, mas para rejeitarem aquilo que veem. Esse olhar persecutório sobre o próprio corpo é o reverso do fascínio narcísico: tanto o amor excessivo por si quanto a rejeição radical da própria imagem são expressões do mesmo fracasso na constituição de uma relação simbólica saudável com o corpo²,⁶. A saída para a tragédia de Narciso, como a mitologia nos indica, é a possibilidade de reconhecer o que é a própria imagem e o que é o outro: distinguir o reflexo da realidade, o eu do não-eu, o corpo vivido do corpo idealizado. Essa distinção permite ao sujeito desligar-se do olhar primordial e construir projetos, vínculos e ideais que transcendam a miragem do espelho⁴. Na prática clínica, esse processo passa pela escuta do sujeito, pela criação de um espaço onde a palavra possa circular livremente e onde a imagem de si possa ser questionada, ressignificada e ampliada para além dos estereótipos culturais e das demandas midiáticas. Como apontam os estudos sobre tatuagem emocional, as marcas que carregamos no corpo e na psique são inscrições de história, desejo e relação: não defeitos a corrigir, mas signos a decifrar⁸. Conclusão: A construção da imagem corporal é um processo subjetivo, histórico e relacional, que se inicia no olhar do Outro e se desdobra ao longo de toda a vida. O mito de Narciso continua atual: a busca incessante por uma imagem ideal, alimentada pela cultura do consumo e pela mídia, produz sofrimento, psicopatologia e isolamento. A clínica psicanalítica oferece, nesse cenário, um espaço privilegiado de escuta e ressignificação, no qual o sujeito pode ir além dos estereótipos e construir uma relação mais autêntica com seu próprio corpo e com o Outro. Olhar-se no espelho é uma ação aparentemente simples, mas que condensa toda a complexidade da constituição humana: somos, sempre, o que pensamos ser, o que o outro vê em nós e o que imaginamos que o outro vê. Compreender essa tridimensionalidade é condição para uma vida psíquica mais livre e mais plena.
Referências
Veríssimo LF. Eu sou o que penso que sou. In: Veríssimo LF. Artigos sobre identidade e subjetividade. [S.l.]: [s.n.]; [s.d.].
Souza de Lucia MC. Dismorfofobia e imagem corporal. São Paulo: Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo; 2006.
Furini F. O lugar do narcisismo na constituição subjetiva e a clínica psicanalítica. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Psicologia). Ijuí: Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul; 2002.
Lacan J. O estádio do espelho como formador da função do eu tal como nos é revelada na experiência psicanalítica. In: Lacan J. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor; 1998. p. 96-103. Trabalho original publicado em 1949.
Jerusalinsky A. Psicanálise e desenvolvimento infantil. Porto Alegre: Artes Médicas; 1998.
Freud S. Sobre o narcisismo: uma introdução. In: Freud S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago; 1996. v. XIV. Trabalho original publicado em 1914.
Revista Viver Mente & Cérebro. Benefícios, riscos e mitos da autoestima. São Paulo: Duetto; 2006. n.164.
Revista Viver Mente & Cérebro. Tatuagem emocional. São Paulo: Duetto; 2005. n.150.