USO DE PSICOTRÓPICOS NA ADOLESCÊNCIA: EVIDÊNCIAS SOBRE EFICÁCIA TERAPÊUTICA
Palavras-chave:
Psicotrópicos; Adolescência; Eficácia terapêutica; Transtornos mentais; Avaliação farmacológica.Resumo
Introdução: A adolescência é um período marcado por intensas mudanças biológicas, psicológicas e sociais. Nesse período, que compreende a faixa etária de 10 a 19 anos, há maior vulnerabilidade ao desenvolvimento de transtornos mentais, como depressão, ansiedade e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Dados brasileiros apontam uma prevalência de 30% de transtornos mentais comuns entre adolescentes¹. Outro estudo apresenta variações entre faixas etárias específicas, com 10,8% de prevalência em adolescentes com 12 anos e 19,9% na faixa de 7 a 14 anos². Esses dados reforçam a magnitude dos transtornos mentais na adolescência e a necessidade de estratégias terapêuticas eficazes. Ainda são escassos os dados que reportam intervenções farmacológicas no tratamento de transtornos psicológicos em adolescentes. Embora fármacos psicotrópicos possam representar uma importante estratégia terapêutica, sua eficácia e segurança ainda suscitam discussões, especialmente em razão das particularidades do desenvolvimento neurobiológico dos adolescentes. Objetivo: Sintetizar as evidências recentes disponíveis acerca da eficácia terapêutica dos psicotrópicos utilizados na adolescência para o tratamento de transtornos mentais comuns. Método: Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, realizada na base de dados PubMed/MEDLINE, com o objetivo de identificar estudos que investigaram a eficácia terapêutica de medicamentos psicotrópicos utilizados em adolescentes com transtornos mentais. A estratégia de busca foi elaborada com descritores MeSH e termos livres, combinados pelos operadores booleanos AND e OR, abrangendo os conceitos de adolescência, medicamentos psicotrópicos e eficácia terapêutica. Foram selecionadas metanálises publicadas em inglês ou português nos últimos seis anos (2020–2026), envolvendo adolescentes de 10 a 19 anos. Foram excluídos relatos de caso, estudos com adultos, revisões narrativas, cartas ao editor, estudos sem avaliação de eficácia clínica e artigos não disponíveis gratuitamente. Os resultados da busca apontaram 11 metanálises recentemente realizadas que reportam a eficácia do uso de psicotrópicos em transtornos psiquiátricos em adolescentes. Resultados e Discussão: Respostas terapêuticas variadas foram observadas, em consonância com o que é reportado em estudos de eficácia mais antigos³. Essa eficácia limitada é principalmente reportada no tratamento da depressão em adolescentes. O estudo de Zhou e colaboradores relatou eficácia da fluoxetina em comparação com a combinação desse fármaco com terapia cognitivo-comportamental (TCC), destacando também a TCC isolada como mais efetiva em comparação com outros psicofármacos analisados⁴. Contrariamente, o estudo de Plöderl e colaboradores reportou perda da eficácia clínica da fluoxetina após a inclusão de novos estudos em suas análises⁵. Além disso, outros dois estudos reportaram que a combinação de farmacoterapia associada à TCC foi mais efetiva do que o tratamento medicamentoso isolado⁶˒⁷. Outras três análises verificaram a eficácia terapêutica em comparação com grupos placebo e apontaram, embora com efeitos pequenos, eficácia terapêutica de diversos psicotrópicos⁸⁻¹⁰. Ainda, efeitos bastante limitados na eficácia de agentes antidepressivos de última geração foram reportados em outra análise¹¹. Esses achados representam uma lacuna importante na discussão sobre a real efetividade do uso de agentes psicotrópicos em adolescentes e contrastam com o que se observa na prática clínica, principalmente no que se refere aos protocolos de recomendação de acompanhamento psicoterapêutico como primeira linha de tratamento em casos de transtornos psicológicos considerados clinicamente leves. Embora efeitos diversos tenham sido relatados em relação à medicação do transtorno depressivo, para o tratamento do TDAH os estudos apontam melhora dos sintomas com o uso de psicotrópicos, desde que observada a dose. No entanto, apenas duas metanálises recentes reportaram eficácia terapêutica especificamente para essa condição¹²˒¹³. Vale destacar ainda a discussão sobre tolerabilidade relacionada à eficácia terapêutica. Uma metanálise demonstrou pouca tolerabilidade ao uso de alguns psicotrópicos entre adolescentes, principalmente em razão da ocorrência de efeitos adversos indesejáveis¹⁴. Mesmo com a possibilidade de ajuste de dose, esse fator tem contribuído para taxas de descontinuidade terapêutica em adolescentes. Dessa forma, a introdução de terapia medicamentosa nessa faixa etária exige acompanhamento contínuo, pois, além de a interrupção do uso representar risco de desenvolvimento de sintomas de descontinuação, pode aumentar o risco de recaídas e comprometer a remissão dos sintomas. Dados apontam que a incidência de recaídas é mais elevada em adolescentes que fazem somente uso de medicação psicotrópica, enquanto essa taxa diminui significativamente quando o tratamento é associado a terapias voltadas à prevenção da reincidência dos sintomas¹⁵. Conclusão: Com base nos estudos apresentados, conclui-se que, embora os psicotrópicos constituam uma importante ferramenta terapêutica no manejo de transtornos mentais na adolescência, as evidências atuais sobre sua eficácia permanecem heterogêneas e dependem do transtorno avaliado, do fármaco utilizado e dos desfechos analisados. Os resultados demonstram maior consistência dos benefícios quando os medicamentos são associados à terapia cognitivo-comportamental⁴˒⁶˒⁷. Questões relacionadas à tolerabilidade, à adesão ao tratamento e ao risco de recaídas reforçam a necessidade de acompanhamento clínico contínuo e de uma abordagem multidisciplinar¹⁴˒¹⁵. A escassez de estudos recentes, especialmente no contexto brasileiro, evidencia a necessidade de ensaios clínicos e revisões de alta qualidade metodológica que subsidiem protocolos terapêuticos mais seguros e baseados em evidências para a população adolescente.
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